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25 agosto 2010

A Água

Escrito por Manoel Maria Barbosa du  Bocage 
- Um clássico da literatura Portuguesa: 


A ÁGUA

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.


Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da rasca
tira o cheiro a bacalhau da lasca
que bebe o homem que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão


Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega as rosas e os manjericos
que lava o bidé, lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.



AGUA OU VINHO???? 

NÃO POSSO PRIVAR OS MEUS AMIGOS DESTA NOTICIA.

Foi comprovado em pesquisa científica que se beberes mais de 1 litro de  água por dia, durante 1 ano, no final do ano terás ingerido mais de 1 quilograma de coliformes fecais que estão diluídos na água, ou seja:

    - 1 quilo DE MERDA!!!!!!

Já bebendo vinho... não se corre esse risco uma vez que esses coliformes não sobrevivem ao processo de fermentação. Por isso peço que comuniques a todos os que bebem água, que essa porra faz mal.!!
Está dado o alerta! Depois não digas que eu não avisei!!!!!

Quem tiver consciência vai chegar à conclusão de que:

"É muito melhor beber vinho e dizer merdas, do que beber merda e não dizer nada".

19 janeiro 2009

Balada da Neve





Este tempo que se vê pela janela, é Invernia, só me traz à cabeça um dos mais conhecidos poemas portugueses. Ou melhor, parte do poema, já que duvido que haja muita gente que já o tenha ouvido na íntegra...
Escrevo, como alguns já entenderam, da Balada da Neve, de Augusto Gil.

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
-Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

Do Poeta - Augusto Gil

Mais uma vez este Blog foi premiado

Este selo foi oferecido pela Eliana Gerânio Honório do Blog Espaço Mensaleiro, Blog que merece a visita de todos os amigos.

O selo com que o Jardim de Urtigas foi premiado por Tossan do Blog klic tossan Blog de Poesia e de belíssima e refinada fotografia.

25 dezembro 2008

Poema de Natal - A. Gedeão

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

Entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.

Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha,

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-o a surpresa

do Menino Jesus.

Jesus

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,

Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

08 dezembro 2008

Os “mitos” em torno de Florbela Espanca e sua obra

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
--- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

Conheci Fábio, quando ele entra Orkut adentro, pede para ser meu amigo e logo me pede um favor, se lhe dava guarida em Évora por algum tempo, pois queria tirar o mestrado em Literatura Portuguesa, na Universidade de Évora... Fábio um jovem Pernambucano da cidade de Caruaru.

Chegou a Portugal, e logo teve de se deparar com o Inverno das Planícies Alentejanas, para quem chega da terra do Sol é deveras forte a mudança... cheguei a encontra-lo com o pijama vestido por baixo das calças, andando na rua, por brincadeira, lhe chamava de Paraíba, coisa que ele se mofava todo, tudo menos ser da Paraíba... Fala sempre de um só fôlego do seu Pernambuco, "isso sim é terra e é gente", assim ele se exprime.

Fábio por cá andou dois anos a tirar o Mestrado, com Bolsa de um Português residente no Recife, chega agora a hora da partida para rever a família, ver de alguma saia que por lá deixou, digo eu... pois por aqui não lhe conheci namorada e iniciar a prospecção para ensinar em alguma Universidade do Brasil...

Mas vai voltar, pois quer fazer o Doutoramento... para tal já se inscreveu num Curso na Universidade de Évora... Assim na hora da despedida, não é um até sempre, mas um até à volta.

E porquê eu escolhi o texto seguinte, para esta Blogagem Colectiva "Interlúdio por Florbela"... tenho assistido a muitos gostos sobre a poesia e vida de Florbela, mas um doido tão grande pela poeta, nunca vi... A sua tese de Mestrado, não podia ser outra coisa, que não sobre a Poeta Calipolense.

Coloco aqui o que foi publicado no Jornal da Terra (Diário do Sul) do dia 27/11/2008 de autoria do meu amigo Pernambucano Fábio Mário Silva.


À Comunidade Portuguesa de Pernambuco

No dia 24 de Março de 2007 sai um curioso artigo no Jornal Diário do Sul1 sobre o dia mundial da Poesia. Uma das coisas que nos chama a atenção ao abrir esse jornal é a imagem de Florbela Espanca que, ocupando o centro da página, se destaca logo aos olhos de qualquer leitor. O interessante é perceber que não há sequer uma linha a falar da poetisa alentejana: a imagem de Florbela apenas se configura como uma projeção, um arquétipo, que induz, se não todo o leitor português, pelo menos os leitores alentejanos, ou aqueles que apreciam poesia, a fazerem uma ligação direta de Florbela com poesia. Essa projeção do nome de Florbela e de sua imagem é construída há vários anos, criando “mitos” em torno de seu nome e sua obra. Ou seja, produziu-se uma imagem ilusória de Florbela, sobretudo com a política salazarista e a Igreja,2 que repudiaram sua obra, por causa de uma biografia nada comum para os padrões vigentes. Toda esta problemática gerou, aos críticos, um certo descompasso ao analisar a obra da poetisa, tentando reconstituir a autora a partir de sua obra poética, transformando-a em personagem, por causa da aproximação entre a biografia e a obra:

O escritor diz sempre (mais ou menos) o que realmente pensa.

Resgata e amplia as coisas para o seu pensamento real.

É sempre mais rico ou mais pobre, mais diverso e mais breve, mais claro ou mais obscuro.

Por isso aquele que pensa reconstituir um autor a partir da sua obra acaba por fabricar um personagem imaginário.3

Este “personagem imaginário” faz com que os críticos sejam seduzidos pela biografia da poetisa, usando a sua obra para lhe constituir um perfil psicológico. Estes “mitos” criados envolvem vários fatores que relacionam a biografia com a obra de Florbela, como, por exemplo: a imagem de femme fatale, de uma mulher dramática e de uma escritora com distúrbios mentais. Ou seja, esses ditos “mitos” servem para uma grande parte dos críticos florbelianos associarem a vida à obra da autora.

Maria Luísa Leal refere-se ao dilema criado em torno de Florbela, que perturbou a cidade de Évora: colocar, ou não, um busto4 (esculpido por Diogo de Macedo e dedicado a Florbela) no Jardim Público de Évora? E refere-se a José Régio, como mais um crítico que contribuiu para a construção do “mito”:

A própria questão do busto de Florbela Espanca esculpido por Diogo de Macedo e retirado do Jardim Público de Évora por indústria de “algumas senhoras eborenses e dois sacerdotes”, que desencadeou reacções na imprensa, entre as quais se conta a de José Régio, contribuiu para erigi-la em mito.5

Acerca da imagem do “mito” construído, Rui Guedes, empresário português, que incessantemente percorreu tudo o que a poetisa escreveu, publica textos inéditos e a obra completa, juntamente com a fotobiografia em 1985, e afirma-nos também, sobre os biógrafos que se ocuparam em denegrir a imagem de Florbela, e que faltava a “investigação séria da verdade”:

E a bola de neve da distorção maledicente foi crescendo, numa série de conceitos em segunda mão utilizados pelos que, não compreendendo a genialidade da Poetisa que viveu na época, a julgaram com mesquinhez, sem piedade e sem compreensão.6

A Professora Maria Lúcia Dal Farra7 nos chama a atenção para a dita “investigação séria da verdade” que não esteve presente nas Obras Completas de Florbela Espanca, e que tanto Rui Guedes sublinhou na sua “Nota Preliminar”:

Numa dessa obras, na Fotobiografia, a reconstrução de uma época descamba, de um álbum de retratos, para uma lição de anatomia que devassa, não mais a intimidade poética ou a vida particular de Florbela, mas sua integridade física e a sua legitima privacidade pós-mortem, constato eu. Isto porque ali se exibem, ao lado de outras, duas fotos que são apresentadas como - pasme, o esclarecido leitor!- ‘metade esquerda do maxilar inferior de Florbela’ e ‘pedaços do seu cabelo’! Ao meu ver, é apenas ali que se pode compreender o acentuado e propalado ‘rigor científico’ da edição.8

É verdade que, afora o valor não científico, gralhas e falhas nas edições das publicações do empresário Rui Guedes, José Carlos Seabra Pereira prefaciou-as fazendo um resgate histórico e a análise de algumas poesias.

Quando Cláudia Pazos Alonso nos remete para a “imagem dramática” construída por Guido Batelli, percebemos, também, que outros estudiosos contemporâneos do século XXI constroem a mesma imagem de Florbela feita por Batelli há quase cem anos:

Se a poesia lírica é essencialmente subjetiva e o romantismo exacerba o individualismo, em Florbela Espanca, visceralmente lírica e romântica, é difícil separar a obra e a vida, de tal forma uma e outra se entretecem. Por mais que nos voltemos para os conceitos modernos de análise literária, que nos apontam os perigos de ultrapassar o campo de análise propriamente dito – ou seja, a obra em si, com todos os elementos que a personalizam – a biografia de Florbela nos seduz, inclusive como esclarecimento para sua poesia.9

Temos de ter cuidado quando uma biografia “seduz” mais que a obra, ou quando uma justifica a outra. Não queremos dizer com isso que devemos esquecê-la; no entanto, a obra por si mesma fala-nos e transcende a autora, Florbela Espanca. Talvez análises como essas se tornem tendenciosas porque esquecem de referir que escritoras como Florbela carregam em sua escrita características próprias e identificativas, pois “a combinação de dados biográfico-escriturais torna possível ler os traços (resíduos) disseminados do desejo que vão retornando nas marcas do estilo.”10


O MITO DA PERFILHAÇÃO

Florbela D’Alma da Conceição Espanca11nasceu em Portugal, Vila Viçosa, no ano de 1894, numa época em que a condição de submissão era legado das mulheres. Desde a infância a figura do pai lhe foi de grande estima, mesmo tendo sido Florbela concebida num relacionamento clandestino. Em virtude de tal situação sua mãe a registra como filha de pai incógnito. A mãe de Florbela fora abandonada pelos pais, criada por uma senhora que trabalhava nos correios de Vila Viçosa e que lhe deu seu apelido, Lobo, passando, assim, a se chamar Antónia Lobo. Florbela foi criada passando meses com a mãe biológica (que trabalhava como empregada na casa de seu pai) e outros com o pai e a madrasta. A perfilhação só acontecerá após a morte da poetisa, em 1949. Segundo Manuel Serrano, é neste ano que um grupo influente de pessoas (entre as quais alguns nomes fundadores do Grupo de Amigos de Vila Viçosa) pede a João Maria Espanca que confirme a paternidade tornando-a oficial. Serrano acredita que isto não foi feito com intenções de reivindicar direitos de autor, mas porque “tratou-se sobretudo de uma reposição da verdade e um acto de justiça que só peca por ser tardio e que representa mais um drama na vida de Florbela.”.12


O MITO DO INCESTO

Outra questão no que toca a biografia de Florbela Espanca é o “mito” do incesto, com seu único irmão, Apeles Espanca13. Maria Lúcia Dal Farra esclarece no Afinado Desconcerto (contos, cartas e diário de Florbela Espanca), que a poetisa seria para o salazarismo o anti-modelo do feminino, como também explica que o Estado Novo utiliza-se do profundo amor que a poetisa tinha pelo irmão, Apeles, para justificar um possível incesto. Este facto é desconsiderado pela estudiosa, tendo em vista a análise detalhada e as inúmeras entrevistas que fez sobre a vida de Florbela Espanca. Ou seja, a política salazarista e a igreja procuravam motivos para denegrir a imagem de Florbela Espanca, porque ela era uma mulher à frente do seu tempo, com três casamentos mal fadados e um possível suicídio.


O MITO DOS CASAMENTOS


O amor, esse sentimento que ora é acalentador, ora arrebatador na obra de Florbela, esteve presente na sua adolescência em Évora: a poetisa apaixona-se perdidamente por um rapaz apenas conhecido, através de suas cartas, como “José”14. Alberto Moutinho será o seu primeiro namorado e marido, tendo o casamento sido realizado no civil no dia de seu aniversário, em 8 de Dezembro de 1913. Para isso foi precisa uma autorização judicial que atestava a sua emancipação para poder casar; sendo sua boda na rua de Três, actualmente rua Gomes Jardim, em Vila Viçosa.

Vivendo financeiramente no limite, dando aulas no Redondo, para sobreviver, o casal retorna a Évora para viver na casa do pai de Florbela Espanca. Após um período em Évora mudam-se para Quelfes, concelho de Olhão, no Algarve, dedicando-se ambos ao ensino. Florbela, como grande artista que é, deseja aprofundar seus estudos e quer ir estudar em Lisboa, na Faculdade de Letras, porém se matrícula em Direito. Seu marido é contra, mas mesmo assim passam alguns dias na casa de amigos e familiares. Com o relacionamento desgastado e encantada por Lisboa, Florbela decidi ficar na cidade e Alberto Moutinho vai trabalhar no Algarve.

Nesse intervalo é que Florbela conhece o alferes da artilharia, António Guimarães, por quem se apaixona perdidamente, pedindo o divorcio em 30 de Abril de 1921 e alegando aos pais descontentamento e desgaste na relação. Desta maneira, casa-se com António Guimarães em 29 de Junho de 1921, sendo necessária autorização da hierarquia militar passada em 30 de Maio de 1921. No começo do namoro Florbela troca imensas cartas amorosas com António Guimarães. Porém essa paixão avassaladora perderá o seu encanto, pois António Guimarães, Alferes de Artilharia, é um homem habituado à disciplina militar, mostrando-se também com uma personalidade violenta e rude, ou seja, com pouca capacidade de compreender a sensibilidade de Florbela, uma mulher que estava muito à frente do seu tempo, seja pela forma com que escreveu poesias, seja pela forma com que encarou e enfrentou os preconceitos da sociedade. O que António Guimarães faz neste período é transformar a sua vida num pesadelo, chegando até a bater-lhe. Nesta época, Florbela fica com a saúde extremamente fragilizada,15 o amor torna-se um fardo pesado em sua vida

É neste momento que conhece o Dr. Mário Lage, médico que a acompanhou no seu período de convalescença. Após se recuperar, Florbela alega maus tratos e pede o divórcio pela segunda vez. Em 23 de Junho de 1925 é decretado o divórcio de Florbela e António Guimarães. Claro que esse factores influenciaram bastante negativamente na família de Florbela, ficando sua relação com o pai e o irmão abalada.

Mário Lage assume seu amor pela poetisa e casa-se com ela no civil em 15 de Outubro de 1925. O casamento religioso realiza-se em 29 de Outubro do mesmo ano e mudam-se para Matosinhos. Com a morte do irmão, Florbela fica, mais uma vez, muito doente e começa a escrever uma obra narrativa, As Máscaras do Destino, em homenagem a Apeles Espanca. Desiludida com o seu terceiro casamento, sofrendo pela morte do irmão querido e extremamente fragilizada, Florbela procura forças mas, mesmo antes de sua morte física, vemos que ela já estava morta, pois escreve no dia 2 de Novembro de 1930, no seu Diário do último Ano: "e não haver gestos novos nem palavras novas!"16.

Acreditamos que há muito a ser estudado e dito acerca dos textos literários produzidos por essa mulher que já foi chamada “Soror Saudade”, pelo poeta e amigo Américo Durão, e que tinha da literatura uma extrema necessidade: “Não sei fazer mais nada a não ser versos: pensar em versos e sentir em verso. Predestinações...”. Lembrando-nos dos limites entre obra, autor e produção literária, Gaston Bachelard vem corroborar Florbela e as nossas próprias indagações: “o artista não cria como vive, mas vive como cria.”.

Fabio Mario da Silva


1 A reportagem, que se intitula “As pessoas continuam a precisar de poesia”, de 21 de Março de 2007, não possui indicação de autor. (cf. Anexo).

2 Esta informação é baseada nos estudos da pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra, ao afirmar, no Afinado Desconcerto, que Florbela foi para a Igreja e para o salazarismo “o anti-modelo do feminino, da concepção de mulher” (p.17).

3 Paul Valéry, Apontamentos. Artes, Literatura, Política & Outros, trad. de Luís Fernando Quaresma, Lisboa, Pergaminho, 1994, p.19.

4 Após a morte de Florbela Espanca, Celestino David fez propaganda para recolher colaborações através do Diário de Notícias para colocação do busto no Jardim Público de Évora, mas por causa da vida da poetisa – dois divórcios e três casamentos em cerca de três anos e um possível suicídio – autoridades conservadoras ligadas ao Estado Novo, com estreitos princípios moralistas, mantiveram, por anos, o busto da poetisa na cave do Museu de Évora, ficando apenas o plinto num determinado local do jardim com a inscrição “A Florbela Espanca”.

5 “O papel do discurso crítico e do discurso poético na relação entre Florbela Espanca e o cânone”, in A planície e o abismo (Actas do Congresso sobre Florbela Espanca realizado na Universidade de Évora, de 7 a 9 de Dezembro de 1994), Évora, Vega, 1997, p. 34-35.

6 “Organização, introdução e notas”, in ESPANCA, Florbela, Obras Completas de Florbela Espanca, vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 1995, p.15.

7 A Professora Doutora Maria Lúcia Dal Farra, apresenta-nos – além de um grande números de artigos e trabalhos acerca da obra e vida de Florbela Espanca – o caderno Trocando Olhares que foi uma publicação que veio estabelecer a história da “pré-história” da poesia florbeliana, a obra Poemas de Florbela Espanca (1996) e a obra Afinado Desconcerto (contos, cartas, diário), entre tantas outras publicações, revolvendo as lacunas deixadas por Rui Guedes nas edições das Obras Completas.

8 “Florbela: um caso feminino e poético”, in A planície e o abismo (Actas do Congresso sobre Florbela Espanca realizado na Universidade de Évora, de 7 a 9 de Dezembro de 1994), Évora, Vega, 1997, p.148.

9 Maria de Lourdes Hortas, “Florbela Espanca e a poesia feminina no Pré-Modernismo em Portugal”, in PAIVA, J. Rodrigues (org.), Estudos Sobre Florbela Espanca, Recife, Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, 1995, p.92.

10 Luzia Machado Ribeiro de Noronha, Entreretratos de Florbela Espanca: uma leitura biografemática, São Paulo, Annablume: Fapesp, 2001, p.19.

11 Segundo Rui Guedes “Apesar de ter sido baptizada como nome FLOR BELA LOBO, logo que começa a escrever passar a usar Florbela d’Alma da Conceição Espanca, possivelmente por influência de seu pai.” (Acerca de Florbela Espanca, Dom Quixote, Lisboa, 1986, p.26). Já o Dicionário da Literatura Portuguesa, Brasileira, galega, Africana, estilística literária, organização Jacinto do Prado Coelho, registra uma pequena alteração: Florbela de Alma da Conceição Espanca. (p.304).

12 “O amor e o trágico na vida de Florbela Espanca”, in Callipole, n.º 15, Câmara Municipal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, 2007, p. 206.

13 Há logo na entrada na Universidade de Évora uma placa em homenagem a alguns alunos aviadores do antigo Liceu que hoje é a Universidade, onde consta o nome do Apeles Espanca.

14 A pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra esclarece-nos quem era esse “José”: “Sabe-se hoje que “José” não passa de um criptônimo a esconder a verdadeira identidade de João Martins da Silva Marques, oriundo de Redondo, Alentejo, e que viria a se tornar, mais tarde, assistente da Faculdade de Letras de Lisboa e diretor da Torre do Tombo. Florbela teria conhecido o rapaz na Figueira da Foz onde se encontrava em casa do seu padrinho Daniel da Silva Barroso.” (Florbela Espanca, Afinado Desconserto ( contos, cartas, diário), organização Maria Lúcia Dal Farra, São Paulo, Iluminuras, 2002, p.164).

15 A saúde de Florbela fica fragilizada não só pelos problemas conjugais, mas também pela ocorrência do segundo aborto involuntário. Primeiro aborto involuntário em 1918, segundo em 1923

16 Diário do último ano, Lisboa, Bertrand, 1981, p. 61.

07 novembro 2008

BLOGAGEM COLETIVA: HOJE É DIA DE CECÍLIA!


Podem retirar um pequeno programa, onde poderão ouvir a poetisa declamando os seus próprios poemas, seguindo o link seguinte.

Homenageando Cecília.

Poesia de Cecília

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...


— e um dia me acabarei.


O Jardim de Urtigas, não quis deixar de participar, na 'Blogagem Colectiva', Hoje é dia de Cecília, promovido pelo Blog "NA DANÇA DAS PALAVRAS" da Leonor Cordeiro.

01 novembro 2008

Para o Erudito....


Hoje dia de " Todos os Santos ", não é um bom dia para "urtigas"... comecei o dia por visitar meu Pai e fui acompanhado de minha Mãe, entrou a tristeza pela impossibilidade, dos momentos de convívio, das salutares conversas, tudo num ápice me passou enquanto interiormente fazia uma oração. O dia também não ajuda, quando o Sol desperta, tenho de retirar o casaco, para segundos depois o colocar, pois o Sol já está encoberto... faz frio. Um dia triste... Talvez mais logo, quando todos nos juntarmos por cá, a coisa alegre , com as castanhas, as passas, as nozes... e o licoroso, iniciar a descida , goelas abaixo, aí pode bem acontecer que o meu estado de espírito mude... e volte a ser um simples Jardineiro .

Como não estou com os azeites, bem pelo contrário... mas também, não estou nos dias de muito e ligeiro riso, que por norma acompanha o moço... viro-me para a erudição... Assim e com vossa licença... hoje temos flores bem imbuídas no perfume de lindas e extremosas poesias.... Poetas ... Não interessa a nacionalidade, mas Poesia.

Assim , este Blog fará parte no dia 7 de Novembro " HOJE É DIA DE CECÍLIA! " data que marca mais um aniversário do nascimento da escritora Cecília Meireles.

O "Jardim" deseja comemorar essa data distribuindo a poesia de Cecília pela blogosfera com a blogagem colectiva:

Photobucket

Esta é uma iniciativa do Blog "Na dança das palavras "

Podem retirar um pequeno programa, onde poderão ouvir a poetisa declamando os seus próprios poemas, seguindo o link seguinte.

Homenageando Cecília.


-X-

Florbela Espanca

Tarde de mais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!...


Maria Guinot

Silêncio e Tanta Gente

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar


Euclides Cavaco

Ternura das Rosas

Vi duas rosas nascer
E dia a dia crescer
Num jardim chamado vida.
Transparentes e viçosas
São hoje as mais belas rosas
A que a terra deu guarida.

Soberbamente cuidadas
Estas rosas delicadas
Transbordavam de perfume.
Por serem rosas perfeitas
Estavam sempre satisfeitas
Causando às outras ciúme.

Tinham em cada alvorada
Esperançosa a madrugada
De mais um dia risonho.
E o Sol com um sorriso
Trazia do Paraíso
Tudo o que fosse seu sonho.

Que essas rosas feitas gente
Deixem delas a semente
Na sua essência mais pura.
Pra sempre a vida adornar
De quem as soube cuidar
Com tanto amor e ternura!...


Ser feliz é...

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma critica, mesmo que injusta.

" Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo... "

(Fernando Pessoa)

01 outubro 2008

Aqui existe poema....

Andando de pedrinha em pedrinha, por alguns blogs amigos, o que mais vejo são poemas ao amor, à paixão ou textos acertados pelo mesmo diapasão.
Para demonstrar, que este jardim, não tem só flores exóticas, que por mais das vezes fazem pensar os visitantes que me deixam os seus bem-fadados comentários, também recebo por e-mail algumas pancadinhas dos amigos, não esquecendo alguns telefonemas, de riso espontâneo e bem silvados no meu ouvido. Por vezes me perguntam o que eu quero dizer com certo post, visto pertencerem à categoria de demonstrando.... Então para demonstrar, que este jardim é bem ornamentado na sua floricultura, sai hoje e penso que pela primeira vez um poema.


Como não sei escrever lirismo e a métrica me é difícil, julgo por melhor, socorrer-me de duas amigas... a primeira de nome Lana, de Mossoró RGN , que aprendeu o caminho da América Latina para a Europa. A Segunda de BH MG , Heloisa de sua graça.

Então para eu entender melhor os predicados da fala Brasileira, me mandou em tempos o Livro"Papo Jerimum" de Cleudo Freire editado pela Sebo Vermelho de RGN, é um livro para eu entender... kkkk

Então cá vai um dos poemas e que o autor não titulou

Testículo é pissuído
Tudo se chama trolha
E ainda carai de asa
Troncha, troço ou tchola

Pênis infantil é bilôla
É pinta e é piróca
Também pode ser pimba
Velha esclerosada é véia de coróca

Masturbação masculina é bronha
Feminina é ciririca
Adoloscente é galeto
Também se chama crica

Pra bunda tem parreco, bassora
Tem fundo, lombo, tem mengão
Tem mucumbu, quarto, garupa
Rabo, padaria e ganha pão

Desejo é secura
Suspiro é fungado
O tarado é ôco
Tá com ereção, tá armado

Pênis é chibanca
Ou mesmo manguêra
Também se chama cipó
Ou ainda Toicêra

E tem mais Manjuba
E também giribaita
Alguns dizem mangote
Outros preferem chibata

Há quem chame lenha
Outros chamam de carai
Muitos suspiram lapa!
Já eu, digo prativai

Vagina é cara preta
É barbuda e é xiranga
É passarinha, é tabaca
É priquito e é buçanha

Chamam também de ariranha
Xeba ou mesmo Xeca
Peceguida e Banguela
Piriquita e Xereca

E eu assim vou aprendendo o vocabulário Brasileiro.

Mas continuando, antes que o sorriso me caia.

A amiga Heloisa me mandou umas fotos... não resisto a mostra-las


















Somos nós que imitamos a Mãe Natureza, ou ela capricha mesmo......

Queriam que eu as comenta-se... não estou virado mesmo ... para esse lado.

Amanhã vai haver mais... Que tenham uma linda Quarta-Feira.

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